Café na menopausa: ajuda a ter energia ou piora o cansaço?

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O café faz parte da rotina de milhões de brasileiras. Para muitas mulheres na menopausa, ele acaba se tornando uma estratégia quase automática para enfrentar o cansaço diante da queda da energia, dificuldade de concentração e sensação de indisposição que podem surgir nessa fase da vida. Mas será que essa estratégia realmente é interessante? “Para mulheres que sempre tomaram café e não têm efeitos adversos, continuar com o mesmo consumo pode não atrapalhar. Mas abusar da dose, tomar suplementos de cafeína ou começar a consumir apenas para mascarar os sintomas de cansaço da menopausa pode contribuir para um ciclo que perpetua a fadiga”, explica a Dra. Ana Paula Fabricio, ginecologista com Título de Especialista em Ginecologia e Obstetrícia (TEGO) e pós-graduação em Nutrologia pela ABRAN.

Café na menopausa: ajuda a ter energia ou piora o cansaço?
Foto: Divulgação

A médica explica que a menopausa é marcada por uma série de alterações hormonais, especialmente pela redução dos níveis de estrogênio. “Essas mudanças podem impactar o sono, o humor, a composição corporal e o metabolismo. Além disso, sintomas como ondas de calor noturnas, despertares frequentes e insônia são comuns e afetam diretamente a qualidade do descanso.

Quando a mulher passa a dormir mal, é natural que procure alternativas para se manter produtiva durante o dia. O café acaba sendo uma das primeiras escolhas. O problema é que a cafeína não corrige a causa da fadiga; ela apenas reduz temporariamente a percepção do cansaço”, explica a ginecologista.

O que a menopausa traz

Um estudo de janeiro de 2025 da revista Nature mostrou que 48% das mulheres sofrem com sintomas inespecíficos, que incluem fadiga, cefaleia, ansiedade e confusão mental. “Além disso, não é incomum que elas apresentam distúrbios do sono, principalmente por conta das ondas de calor, que podem vir à noite. Como consequência, muitas recorrem a doses cada vez maiores de cafeína para compensar a redução da disposição física e mental quando acordam. Mas isso pode gerar um efeito cascata de piora do sono. Porque o excesso de cafeína no organismo demora a ser metabolizado e pode atrapalhar o sono”, diz a ginecologista.

A médica explica que a cafeína exerce seu principal efeito ao bloquear receptores de adenosina, uma substância produzida naturalmente pelo organismo e associada ao aumento da pressão para dormir ao longo do dia. Ao impedir temporariamente a ação da adenosina, a sensação de sonolência diminui e o estado de alerta aumenta. “No entanto, esse mecanismo não elimina a necessidade biológica de descanso. É importante entender que a cafeína não gera energia. Ela apenas interfere em um dos sinais que o cérebro utiliza para indicar que o organismo precisa descansar. Se a causa do cansaço for privação de sono, estresse, alterações hormonais ou alguma deficiência nutricional, o problema continua existindo”, afirma a especialista.

“O consumo excessivo da cafeína pode produzir um efeito paradoxal. Isso ocorre porque a cafeína possui uma meia-vida relativamente longa, podendo permanecer no organismo por várias horas. Quando consumida no final da tarde ou à noite, pode reduzir a qualidade do sono, mesmo em mulheres que acreditam adormecer normalmente. O resultado é um ciclo difícil de interromper: a mulher dorme pior, acorda mais cansada, aumenta o consumo de café para compensar a fadiga e volta a dormir mal na noite seguinte”, alerta a ginecologista.

Café nem sempre tem o mesmo efeito para todas

Além disso, algumas mulheres tornam-se mais sensíveis aos efeitos da cafeína durante a menopausa. “Ansiedade, irritabilidade, palpitações e sensação de inquietação podem ser confundidas com sintomas próprios da menopausa, quando, na verdade, parte do quadro pode estar relacionada ao excesso de estimulantes”, explica a ginecologista.

Segundo o neurologista Dr. Tiago de Paula, especialista em Cefaleia pela Escola Paulista de Medicina (EPM/UNIFESP), a cafeína é ainda pior para pacientes com enxaqueca. “A cafeína, se consumida em quantidade excessiva, pode causar sintomas indesejáveis, entre eles a cefaleia. Além disso, algumas pessoas são sensíveis à cafeína e mesmo com pequenas doses podem desencadear dores de cabeça. E pessoas habituadas a consumir café diariamente, se ficarem um dia sem tomar café, podem também ter cefaleia, pela falta”, destaca a Dra. Marcella Garcez, médica nutróloga, diretora e professora da Associação Brasileira de Nutrologia. “A cafeína presente no café e nos chás estimulantes é conhecida como cronificador da doença. Um exemplo clássico de dor rebote pela cafeína se dá quando o paciente deixa de tomar por um dia o café que toma diariamente e tem uma dor de cabeça, e então toma o café para melhorar”, diz o médico.

Enxaqueca piora

Além disso, o neurologista explica que o cérebro de quem sofre com enxaqueca já apresenta uma tendência maior a reagir de forma intensa a estímulos sensoriais, como luzes fortes, ruídos ou variações hormonais. “Fatores cronificadores ampliam essa reatividade, modificando circuitos cerebrais relacionados à dor e dificultando o retorno ao padrão normal”, diz o Dr. Tiago de Paula, reforçando que a cafeína ainda está presente no chocolate, em chás (como o preto e branco), bebida energética, refrigerante zero e até analgésicos podem contar com a substância. “Quando há uma recomendação de redução no consumo do café, a bebida pode ser substituída por chás, por exemplo”, diz a Dra. Marcella. “Chás relaxantes, como o de erva-cidreira, camomila e hortelã podem ser ingeridos”, sugere o médico.

O mesmo alerta vale para suplementos de cafeínas usados para performance. “É comum encontrarmos suplementos que fornecem entre 200 e 400 mg de cafeína por dose, quantidade equivalente a duas, três ou até quatro xícaras de café. Quando esse consumo se soma ao café, aos energéticos e a outras fontes, o indivíduo pode ultrapassar facilmente níveis que aumentam o risco de efeitos adversos, principalmente quem já convive com enxaqueca”, alerta o farmacêutico Dr. Maurizio Pupo, pesquisador, professor e diretor científico do IPUPO Pós-Graduações. 

“Além da relação com a enxaqueca, a cafeína pode provocar outros efeitos adversos que muitas pessoas acabam atribuindo ao próprio treino. Dependendo da dose e da sensibilidade individual, é possível ocorrer palpitações, aumento da frequência cardíaca, elevação transitória da pressão arterial, ansiedade, tremores, insônia, irritabilidade, náuseas, boca seca e tontura. Em algumas pessoas, especialmente após o efeito estimulante inicial ou em situações de desidratação, também pode haver sensação de fraqueza e queda da pressão ao se levantar rapidamente, embora esse não seja um efeito direto e típico da cafeína”, diz o farmacêutico. 

O cansaço não deve ser tratado apenas com café

Outro ponto importante é que a fadiga na menopausa nem sempre está relacionada exclusivamente às alterações hormonais. Diversas condições podem contribuir para a perda de energia, incluindo anemia, deficiência de ferro, vitamina B12 ou vitamina D, hipotireoidismo, apneia obstrutiva do sono, depressão, ansiedade e alterações metabólicas. O próprio declínio de estrogênio e progesterona está associado à fadiga, dor muscular e articular, e ganho de peso”, completa a Dra. Ana Paula Fabricio.

O mais correto é passar por uma investigação médica quando o cansaço se torna persistente. “É comum que algumas mulheres considerem a fadiga uma consequência inevitável do envelhecimento ou da menopausa. Mas essa percepção nem sempre está correta. Existem causas tratáveis que precisam ser identificadas para que a paciente tenha melhora real da qualidade de vida”, destaca. “O estrogênio (isolado ou combinado com progesterona) é o tratamento de primeira linha para sintomas da menopausa incômodos. Sempre que necessário, podemos fazer a terapia de reposição hormonal para melhorar a qualidade de vida dessa mulher”, comenta a ginecologista.

Por fim, sobre o café, de acordo com organismos internacionais de saúde, a ingestão diária de até 400 mg de cafeína costuma ser considerada segura para adultos saudáveis, mas a tolerância varia entre indivíduos. “Algumas mulheres podem apresentar sintomas com quantidades muito menores”, diz. Entre as abordagens para combater o cansaço, estão a prática regular de atividade física, cuidados com a higiene do sono, alimentação equilibrada, controle do estresse e avaliação médica para investigação de alterações hormonais ou deficiências nutricionais. “O problema surge quando a cafeína passa a ser utilizada como estratégia para compensar um organismo que está sinalizando a necessidade de atenção. Nesses casos, vale a pena investigar o que está por trás do cansaço em vez de apenas tentar escondê-lo”, conclui a ginecologista.