Seletividade alimentar pede acolhimento de pessoas neuroatípicas

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Mais do que “frescura” ou uma fase da infância, restrição persistente pode estar ligada a hipersensibilidades, desconfortos físicos e deficiências nutricionais; abordagem deve evitar pressão e envolver diferentes profissionais 

Um purê com um pequeno grumo, uma fruta mais madura que o habitual ou dois alimentos encostando no prato. Situações aparentemente simples podem tornar a refeição uma experiência de intenso desconforto para algumas pessoas neuroatípicas. Entre crianças e adultos autistas ou com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), características como cheiro, textura, cor, temperatura e apresentação da comida podem desencadear recusa, ânsia e até vômito. Nesses casos, reduzir o comportamento a birra ou falta de educação não apenas ignora um sofrimento real como pode atrasar a busca por ajuda.

Foto de Thought Catalog na Unsplash

Uma revisão sistemática publicada em 2024, que analisou 20 estudos com crianças e adolescentes autistas sem deficiência intelectual, encontrou prevalência de seletividade alimentar entre 21% e 76%. A ampla variação reflete diferenças entre as populações e os critérios adotados nas pesquisas, mas o trabalho identificou um padrão consistente: sensibilidades à textura e ao sabor apareceram de duas a dez vezes mais nesses jovens do que nos grupos de comparação. Os autores também apontaram constipação e excesso de peso entre as possíveis repercussões, embora ressaltem que a evidência sobre as consequências físicas ainda seja menos robusta.

“Seletividade alimentar não é frescura, birra ou falta de educação. Eu sempre faço questão de começar por aí, porque muitas famílias chegam ao consultório cansadas e até culpadas”, afirma a médica nutróloga Ana Luisa Vilela, empreendedora à frente da Salty Way, tempero culinário proteico. Segundo ela, uma fase passageira tende a melhorar com o tempo e não compromete a saúde. O alerta se acende quando o repertório diminui progressivamente, as refeições geram sofrimento ou surgem alterações no crescimento, no peso, no intestino ou nos exames.

O que o corpo pode estar tentando dizer

A dificuldade nem sempre é exclusivamente sensorial. Refluxo, constipação, dor abdominal, náusea e problemas para mastigar ou engolir podem fazer com que a pessoa associe a alimentação à dor. Por isso, a investigação deve anteceder qualquer tentativa de corrigir o comportamento.

“Antes de julgar aquele ‘não quero’, eu sempre penso: o que esse corpo está tentando nos contar?”, diz Ana Luisa.

Entre os sinais que justificam avaliação profissional estão a redução contínua dos alimentos aceitos, o abandono de itens consumidos anteriormente e a necessidade de uma única marca, cor ou forma de preparo. Perda de peso, dificuldade de crescimento, palidez, cansaço, queda de cabelo, unhas frágeis, constipação e infecções frequentes também merecem atenção.

O número indicado pela balança, porém, não conta toda a história. Uma pessoa pode ter peso considerado normal ou viver com sobrepeso e, ainda assim, consumir quantidades insuficientes de proteínas, ferro, vitaminas, minerais e fibras. Em um estudo com 144 crianças publicado em 2021, o grupo autista apresentou maior frequência tanto de baixo peso quanto de obesidade, além de maior inadequação da ingestão de nutrientes e seletividade alimentar, em comparação às crianças neurotípicas.

Quando o cardápio se concentra em biscoitos, massas, pães e outros produtos de pouca variedade nutricional, pode haver excesso de carboidratos e oferta insuficiente de proteínas, fibras e micronutrientes. Ao longo do tempo, esse padrão pode favorecer prisão de ventre, baixa saciedade, alterações da glicose, mudanças no peso e perda de massa muscular.

A pouca variedade também reduz a diversidade de nutrientes disponíveis para as bactérias do intestino, mas a médica faz uma ressalva: cada caso deve ser avaliado individualmente e nem todo sintoma gastrointestinal pode ser atribuído à microbiota.

Ampliar sem transformar a mesa em campo de batalha

O tratamento não começa pela obrigação de comer, mas pela descoberta do que impede aquela pessoa de comer. A avaliação pode envolver crescimento, composição corporal, exames laboratoriais, funcionamento intestinal e registro detalhado do consumo. Dependendo do caso, o cuidado reúne médico, nutricionista, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo e psicólogo, especialmente quando há alterações sensoriais, dificuldades de mastigação ou deglutição, medo, ansiedade ou conflitos familiares relacionados à alimentação.

A exposição ao novo alimento deve ser gradual. Antes da primeira mordida, o avanço pode ser tolerar o item sobre a mesa, aceitá-lo no prato, tocá-lo e cheirá-lo.

“Pode parecer pouco para quem vê de fora, mas, para aquela pessoa, pode ser uma conquista enorme”, afirma Ana Luisa.

Enquanto o repertório é trabalhado, estratégias de fortificação podem ajudar a elevar a densidade nutricional dos alimentos já aceitos, desde que orientadas por profissionais. Foi a partir desse princípio que a médica desenvolveu a Salty Way, tempero culinário proteico de sabor salgado e neutro que pode ser adicionado a preparações como arroz, feijão, purê, sopa, molho ou omelete. A proposta busca atender pessoas que não toleram bebidas doces, aromas artificiais ou a consistência de suplementos tradicionais.

Mesmo alterações discretas podem ser percebidas por quem apresenta alta sensibilidade, razão pela qual a introdução deve ser progressiva. “A fortificação ajuda muito, principalmente enquanto trabalhamos a ampliação do repertório. Mas ela não substitui o tratamento nem todos os nutrientes de uma alimentação variada”, destaca.

Um problema que também acompanha adultos

A seletividade alimentar não desaparece necessariamente ao fim da infância. Muitos adultos desenvolvem estratégias para escondê-la: consultam o cardápio antes de sair, evitam restaurantes, levam a própria comida ou dizem que já comeram para não precisar se explicar. Além das possíveis deficiências nutricionais e alterações intestinais, de peso e de massa muscular, a restrição pode interferir em viagens, encontros, reuniões profissionais e relacionamentos.

“Só porque a pessoa vive assim há muitos anos não significa que esteja tudo bem. Muitos adultos passaram a vida ouvindo que eram ‘difíceis para comer’, quando, na verdade, precisavam de compreensão e tratamento”, diz a nutróloga.

Para as famílias, a orientação central é preservar a segurança à mesa. Isso inclui manter pelo menos um alimento já aceito durante a refeição e apresentar novidades sem exigir consumo imediato. Esconder ingredientes, ameaçar ou deixar a criança com fome até que ela ceda pode aumentar o medo e intensificar a recusa.

“Acolher não é desistir de ensinar a comer. É construir esse caminho com respeito, sem violência e sem culpa. A criança precisa sentir que a mesa é um lugar seguro. É a partir dessa segurança que conseguimos avançar”, conclui Ana Luisa.