Sensação de solidão é sinal de alerta para saúde mental

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Estudo com mais de 277 mil adultos associa solidão e isolamento social à redução dos anos de vida livres de transtornos mentais; psiquiatra explica por que vínculos também devem fazer parte do cuidado emocional

Ter família, colegas de trabalho, vizinhos e até uma rotina social movimentada não significa, necessariamente, sentir-se acompanhado. A solidão é uma experiência subjetiva e pode existir mesmo quando há pessoas por perto. No Setembro Amarelo, mês dedicado à conscientização e à prevenção do suicídio, especialistas chamam atenção para a importância de observar também a qualidade dos vínculos e a sensação de pertencimento como parte dos cuidados com a saúde mental.

Foto de Kelly Sikkema na Unsplash

Um estudo publicado em 2026 na revista Nature Communications, que acompanhou 277.489 adultos do UK Biobank por uma média de 13,5 anos, reforça a relevância do tema. Os pesquisadores encontraram associação entre solidão e isolamento social e uma menor expectativa de vida livre de doenças, especialmente transtornos mentais. Entre pessoas de 50 anos que apresentavam simultaneamente solidão e isolamento, a diferença estimada nos anos vividos sem depressão ou ansiedade chegou a 3,7 anos entre as mulheres e 5,8 anos entre os homens, em comparação com participantes sem esses fatores.

Segundo o psiquiatra e psicogeriatra Dr. Gustavo Omena, um dos pontos importantes é entender que solidão e isolamento social não são sinônimos. “O isolamento é mais objetivo: diz respeito à pouca convivência, à ausência de uma rede de apoio ou à baixa participação social. A solidão é subjetiva. Uma pessoa pode estar cercada de familiares, amigos ou colegas e, ainda assim, sentir que não tem com quem contar ou compartilhar aquilo que está vivendo”, explica.

As conclusões

O estudo também mostrou que hábitos considerados saudáveis, como atividade física, alimentação equilibrada, sono adequado e não fumar, podem amenizar parte dos impactos associados ao isolamento social, mas não parecem neutralizar da mesma maneira os efeitos relacionados à solidão. Para Omena, o resultado traz uma mensagem importante: cuidar do corpo é fundamental, mas não substitui vínculo, escuta e pertencimento.

No contexto do Setembro Amarelo, a discussão também ajuda a ampliar o olhar para mudanças emocionais e comportamentais que podem indicar sofrimento. Afastamento progressivo, perda de interesse por atividades antes prazerosas, sensação persistente de não pertencer, desesperança, dificuldade de pedir ajuda e falas recorrentes sobre ser um peso para os outros são situações que merecem atenção, especialmente quando surgem em conjunto ou representam uma mudança importante no comportamento habitual.

“Precisamos naturalizar perguntas que muitas vezes ficam fora das conversas sobre saúde: você tem alguém com quem conversar quando não está bem? Tem com quem contar? Sente que pertence a algum lugar? Perguntar e escutar de verdade pode abrir espaço para que uma pessoa fale sobre um sofrimento que até então estava vivendo sozinha”, afirma o psiquiatra.

O especialista ressalta que a solidão, isoladamente, não deve ser tratada como sinônimo de depressão ou de risco de suicídio. No entanto, quando é persistente e acompanhada de sofrimento emocional, desesperança ou mudanças importantes de comportamento, merece ser acolhida e avaliada. A recomendação é evitar julgamentos ou respostas que minimizem o que a pessoa sente e, diante de sinais preocupantes, incentivar a procura por ajuda profissional.