Papanicolau segue como porta de entrada do diagnóstico, mas autocoleta de HPV também é estratégia de rastreamento da doença
O câncer de colo do útero deve acometer 19,3 mil brasileiras por ano no triênio 2026-2028. Um salto de 13% em relação à estimativa anterior, segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA). O tumor já é o terceiro mais comum entre mulheres no país e responde por mais de 7,2 mil mortes por ano, o equivalente a cerca de 20 óbitos por dia. A maior parte desses casos poderia ser evitada com rastreamento regular. Já que praticamente todos eles estão associados a uma infecção persistente pelo papilomavírus humano (HPV), segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

O Papanicolau continua sendo o exame mais conhecido para detectar lesões precursoras da doença, mas deixou de ser o único caminho. Desde 2024, o Ministério da Saúde passou a substituir gradualmente a citologia pelo teste molecular de DNA-HPV como método primário de rastreamento no Sistema Único de Saúde (SUS), com início da oferta em setembro de 2025 e expansão em curso pelos estados.
“O Papanicolau ainda tem seu papel, principalmente onde o teste molecular não chegou. Isso não significa que deixamos de indicar citologia ou colposcopia: os dois exames continuam necessários, cada vez com critérios mais precisos. O teste de DNA-HPV identifica o subtipo do HPV, onde o mais importante são os HPV’s de alto risco persistente. É um ganho real de antecipação diagnóstica”, afirma a ginecologista Maria dos Anjos Neves Sampaio Chaves, do Delboni e Lavoisier, marcas da Dasa, líder em medicina diagnóstica no Brasil.
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3 formas de prevenir o câncer de colo de útero
Veja três recomendações de prevenção que devem estar no radar de qualquer mulher entre 25 e 64 anos, faixa etária recomendada para o rastreamento.
1. Papanicolau (citologia oncótica)
Colhido pelo especialista médico durante o exame ginecológico, identifica alterações nas células do colo do útero antes que evoluam para câncer. A recomendação da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) é iniciar aos 25 anos, para mulheres com vida sexual ativa. Ele deve ser repetido anualmente até dois resultados negativos seguidos e, depois, a cada três anos.
2. Teste molecular de HPV e autocoleta
O exame identifica diretamente o DNA do vírus, incluindo os subtipos 16 e 18, responsáveis por cerca de 70% dos casos de câncer de colo do útero. Mas segundo a ginecologista, também deve ser solicitada a genotipagem estendida. Ela é capaz de identificar os demais subtipos de alto risco (não só o 16 e o 18). “Isso é importante porque a infecção persistente por qualquer HPV de alto risco funciona como precursora do câncer”, explica Maria dos Anjos. Enquanto o Papanicolau analisa as células do colo do útero em busca de alterações que já aconteceram, o teste molecular detecta o próprio vírus antes dele causar qualquer lesão, o que permite agir de forma mais precoce.
“Um resultado positivo na genotipagem não significa doença: significa contato com o vírus, e cabe ao médico explicar isso para cada paciente. A conduta muda conforme o subtipo identificado. No HPV 16 ou 18, a orientação é seguir direto para colposcopia, com coleta preventiva de material do canal endocervical. Para os demais subtipos de alto risco, o passo seguinte é uma citologia reflexa, e a colposcopia só entra em cena se houver alteração celular”, acrescenta a especialista. O exame também ajuda a identificar mulheres que nunca fizeram nenhum tipo de rastreamento, grupo que concentra o maior risco da doença.
Possibilidade da autocoleta
Uma das evoluções desse método (teste molecular de HPV) é a possibilidade de ser realizado através da autocoleta. A própria mulher recolhe a amostra vaginal, com uma escova ou swab específico, sem uso de espéculo. A autocoleta amplia o alcance do rastreamento a mulheres que dificilmente participariam dele de outra forma: moradoras de regiões distantes, mulheres em condições de vulnerabilidade, o público LGBT, quem nunca passou por uma consulta ginecológica e quem evita o exame por medo ou desconforto com a introdução do espéculo.
“A autocoleta não substitui o cuidado, mas abre uma nova porta de entrada para o rastreamento. Mais do que facilitar uma coleta, a autocoleta pode alcançar quem o rastreamento tradicional ainda não conseguiu alcançar”, enfatiza Maria dos Anjos.
Para garantir a qualidade da amostra coletada e a precisão do resultado, é fundamental seguir algumas recomendações antes de realizar a autocoleta:
- Não utilizar lubrificantes para realização da autocoleta;
- Nas 48 horas que antecedem o procedimento evitar o uso de cremes, medicações vaginais, contraceptivos vaginais e duchas íntimas;
- Manter abstinência sexual nas 72 horas anteriores à coleta.
A amostra tem desempenho equivalente ao da coleta feita por um profissional de saúde na detecção de lesões de alto grau, segundo um estudo publicado na revista científica The Lancet Public Health. A pesquisa analisou quase 5 milhões de testes de HPV na Austrália entre 2017 e 2023, encontrou resultados semelhantes entre autocoleta e coleta profissional, e viu a adesão ao rastreamento saltar de pouco mais de 1% para cerca de 27% dos exames no país depois da mudança.
3. Vacina contra o HPV
É a principal ferramenta de prevenção primária, aplicada antes do contato com o vírus. Desde abril de 2024, o Ministério da Saúde adota esquema de dose única para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos na rede pública. Adolescentes de 15 a 19 anos que perderam a janela de vacinação de rotina têm uma campanha de resgate prorrogada até 31 de dezembro de 2026. Pessoas com HIV podem ser vacinadas dos 9 aos 26 anos, com esquema de três doses.
A vacina nonavalente (que cobre nove subtipos do vírus, contra quatro da versão pública) está disponível na rede privada dos 9 aos 45 anos. De 9 a 19 anos, o esquema é de duas doses com intervalo de 6 meses. A partir dos 20 anos, passa a ser de três doses, aplicadas aos 0, 2 e 6 meses.
Não só para mulheres
Vacinar meninos é parte essencial da estratégia, mesmo sem risco de câncer de colo do útero. O HPV também causa câncer de orofaringe, hoje com cerca de 15 mil novos casos por ano no Brasil e duas vezes mais frequente em homens. Além de câncer de pênis, de ânus e verrugas genitais. Homens também têm menor chance de desenvolver anticorpos naturais contra o vírus depois de uma infecção do que mulheres. O que os deixa mais suscetíveis a reinfecções, e vacinar os meninos reduz a circulação do vírus e a transmissão para parceiras ainda não vacinadas. Mesmo assim, a cobertura vacinal de meninos no Brasil gira em torno de 36%, abaixo dos 55% das meninas e da meta de 90% do Ministério da Saúde.
“A vacina é uma ferramenta essencial de prevenção: evita não só o câncer do colo do útero, mas outros cânceres e infecções causados pelo HPV”, reforça. Segundo o INCA, a incidência e a mortalidade por câncer de colo do útero nas regiões Norte e Nordeste chegam a ser o dobro das registradas no Sudeste. Isso é um reflexo direto da desigualdade de acesso a exames preventivos. “Quanto mais cedo o diagnóstico, maiores as chances de cura e menos agressivo é o tratamento”, conclui Maria dos Anjos.