Hobby não é luxo, é necessidade: dicas de atividades para incluir na rotina

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O bem-estar e a autoestima dependem de atividades prazerosas

Há 16 anos, o escritor sul-coreano Byung-Chul Han lançava seu famoso livro A Sociedade do Cansaço, onde refletia sobre como a coletividade contemporânea passou a viver sob uma lógica de desempenho permanente, que nos impede de descansar verdadeiramente. Com isso, passamos a enxergar a capacidade de produzir como uma forma de medir valor pessoal e social, o que fez com que atividades prazerosas não fossem mais consideradas um pilar fundamental para o bem-estar.

Hobby não é luxo, é necessidade: dicas de atividades para incluir na rotina
Foto: Freepik

Mas a psicologia diz completamente o contrário: é mais que necessário cultivarmos hobbies exclusivamente pelo prazer, sem nenhuma necessidade de excelência ou resultados. “O hobby funciona como um importante fator de proteção contra o estresse crônico, a ansiedade e o esgotamento. Não é um luxo reservado para poucas pessoas, mas uma necessidade para manter o equilíbrio emocional”, afirma a psicóloga Blenda Oliveira. Esse prazer pode estar em atividades simples, como cozinhar, cuidar do jardim, organizar a casa ou até lavar a louça com atenção plena. “Muitas pessoas relatam que esses momentos ajudam a descansar a mente”, complementa a profissional.

Não sabemos mais descansar

Em A Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han escreveu: “Quem se entendia no andar e não tolera estar entediado, ficará andando a esmo inquieto, irá se debater ou se afundará nesta ou naquela atividade. Mas quem é tolerante com o tédio, depois de um tempo irá reconhecer que possivelmente é o próprio andar que o entedia. Assim, ele será impulsionado a procurar um movimento totalmente novo. […] Comparada com o andar linear, reto, a dança, com seus movimentos revoluteantes, é um luxo que foge totalmente do princípio do desempenho.”

A partir dessa citação, Blenda nos convida a pensar sobre como hoje vivemos em um mundo onde muitas pessoas deixaram de se perguntar “o que me faz bem?” para perguntar “o que isso vai me trazer de resultado?” ou “qual é a utilidade disso?”. “É uma visão extremamente utilitarista da vida. Nesse contexto, o descanso passou a ser visto quase como um prêmio, que só pode ser conquistado depois de muito trabalho, e não como uma necessidade humana. Muitas pessoas sentem culpa diante do ócio, porque ele implica silêncio, contemplação e um encontro consigo mesmo. Perdemos a capacidade de simplesmente estar presentes em uma atividade prazerosa, sem esperar nenhum retorno além do próprio prazer. O resultado é um cansaço que não é apenas físico, mas também emocional”, discorre a psicóloga.

Escolha a contramão

Para seguir um caminho contrário a isso, é preciso lembrar a importância de fazer algo simplesmente por gostar — o que é cientificamente comprovado como uma ferramenta para diminuir o estresse e melhorar a capacidade de regular as emoções. “O cérebro reduz o estado constante de alerta e ativa circuitos ligados ao bem-estar, à criatividade e à satisfação. No corpo, observamos redução da tensão muscular, melhora da qualidade do sono e diminuição dos níveis de estresse”, detalha Blenda.

Além disso, ela pontua que os hobbies funcionam como uma espécie de recuperação psicológica. “Gosto de compará-los às áreas de descanso de uma estrada: você para, respira, se reabastece e segue viagem. Da mesma forma, oferece uma pausa das preocupações e amplia nossa sensação de vitalidade.”

“Quem reserva tempo para descansar costuma voltar ao trabalho mais criativo, atento e produtivo. Ou seja, o hobby não compete com a produtividade; ele ajuda a sustentá-la de maneira saudável.”

Troque resultado por prazer genuíno

Então, em uma sociedade que valoriza excelência e resultados rápidos, o cultivo de hobbies aparece como um convite a contrariar isso ao experienciar sem performar. A psicóloga reforça que manter essa leveza diante de algumas atividades fortalece a autoestima a partir do momento em que nos lembra que nosso valor deixa de depender exclusivamente de reconhecimento externo ou do sucesso profissional. “Existe uma enorme liberdade em fazer algo simplesmente porque gostamos, sem precisar demonstrar competência. Você pode fazer aula de canto mesmo sendo desafinado, aprender cerâmica sem pensar em vender peças ou pintar sem querer expor seus quadros. Ter um hobby nos lembra que somos muito mais do que aquilo que produzimos ou os papéis que desempenhamos”, explica.

E lembre-se: nada de cobranças, abandone metas rígidas e a necessidade de evolução rápida e constante, seja qual for a prática. “Se você passar alguns dias sem praticar, tudo bem. Essa flexibilidade faz parte da experiência. O prazer precisa permanecer maior do que a cobrança”, alerta Blenda.

Dicas do que testar!

Apesar de afirmar que não existe um hobby ideal para cada pessoa, Blenda Oliveira listou algumas possibilidades de atividades que podem ser prazerosas e que você pode colocar em prática a partir de já:

  • Jardinagem
  • Leitura 
  • Pintura 
  • Desenho
  • Fotografia
  • Tocar um instrumento
  • Cozinhar novas receitas
  • Fazer quebra-cabeças
  • Crochê
  • Caminhadas em parques
  • Observar a natureza
  • Escrever em um diário
  • Dançar
  • Fazer cerâmica
  • Participar de um clube de leitura.

Você pode vivenciar uma ou mais atividades destas listadas, ou outras que preferir. O mais importante é que exista interesse genuíno. E talvez essa iniciativa seja um dos maiores sinais de saúde emocional, pois, como afirma a psicóloga: “A saúde não depende apenas da ausência de doença. Ela também depende da presença de experiências que alimentem nossa vida emocional.”