Diagnóstico pode despertar inseguranças sobre a própria saúde e a do bebê
Um sonho de muitas mulheres, a gravidez costuma ser marcada por expectativas e preparativos para a chegada do bebê, com o coração transbordando felicidade. É aquele momento idealizado que mais parece uma cena de filme romântico, com tudo perfeito. Entretanto, para algumas, não é assim. Toda essa alegria sai de cena e abre espaço para o medo, a tristeza e a insegurança quando o diagnóstico de câncer de mama chega às mãos. Agora, além das preocupações corriqueiras da gravidez, surgem outras mil e uma sobre a própria saúde, a do bebê e como tudo isso irá afetar a criança, fazendo com que a cabeça fique rodando com os “e se…”.

Segundo a psicóloga Cristiane Pertusi, presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF), o diagnóstico pode provocar uma ruptura na expectativa de como seria a gravidez que a mulher imaginava viver e pode trazer o receio de não conseguir estar disponível para o bebê como gostaria. “A culpa também pode aparecer, especialmente diante da expectativa social de que uma mãe deve colocar suas necessidades sempre em segundo plano. “Também pode surgir choque, incredulidade, medo, tristeza, raiva e sensação de injustiça. Algumas ficam emocionalmente paralisadas, outras procuram imediatamente informações e soluções. Não existe uma reação única ou uma sequência obrigatória de sentimentos”, afirma.
Os desafios emocionais
Cristiane ressalta que um dos maiores desafios desse período para a mulher é lidar com mudanças simultâneas no corpo, na rotina e na percepção de si mesma. “As transformações da gravidez podem se somar aos efeitos do tratamento, cansaço e preocupações com a imagem corporal, a sexualidade e a autonomia. Consultas e procedimentos também podem ocupar o espaço antes reservado aos preparativos para a chegada do bebê”, contextualiza.
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Diante de tantas incertezas, é recomendado que a mulher reconheça os limites físicos e emocionais, adapte-se às expectativas e divida responsabilidades. “A mulher precisa ser escutada em todas as suas dimensões: como pessoa, gestante, parceira e alguém que está atravessando um tratamento.
Saúde no centro
Junto com todas as preocupações, ocupa o primeiro lugar o medo pela sua própria saúde e a do bebê, o que pode fazer com que a mulher sinta que precisa proteger a si mesma e ao seu filho o tempo inteiro. Para lidar com isso, a psicóloga recomenda nomear seus medos, compartilhar dúvidas com a equipe e compreender o que se sabe sobre seu caso, sem tentar antecipar todos os cenários possíveis. “O objetivo não é eliminar toda a preocupação, mas evitar que ela precise enfrentá-la sozinha.”
“Cuidar da própria saúde é uma necessidade legítima. A maternidade pode incluir ajuda de outras pessoas, mudanças de planos e sentimentos contraditórios, sem que isso diminua o vínculo com o bebê”, destaca a presidente da ABRATEF.
Apoio em todas as áreas
Contar com acompanhamento psicológico nesse período é de extrema importância, porque ele vai poder oferecer um espaço em que a mulher pode expressar medo, raiva, tristeza e ambivalência sem precisar proteger os outros do que está sentindo. “A terapia pode ajudá-la a enfrentar as incertezas, reorganizar expectativas e comunicar suas necessidades. Também permite avaliar sinais de sofrimento mais intenso e a necessidade de cuidados adicionais. Quando ela desejar, incluir o parceiro ou familiares pode favorecer o diálogo e a organização do apoio. Esse cuidado deve estar disponível desde o diagnóstico, e não apenas quando a mulher chega ao limite emocional”, ressalta.
Por falar em familiares e amigos, Cristiane deixa claro que eles podem desempenhar um papel importante nesse momento tão desafiador e dá alguns conselhos do que não dizer: “Não pense nisso” ou “você precisa ser forte pelo bebê”. Essas frases podem aumentar a solidão e a culpa. Prefira dizer algo como: “Imagino como isso está sendo difícil. Você quer conversar ou prefere companhia?”.
Além disso, busque ajudar de formas pontuais, como acompanhar nas consultas, preparar refeições, ajudar com transporte ou cuidar de outros filhos, sempre respeitando as escolhas da mulher. “Apoiar não é empurrar para frente. Apoiar, por vezes, é só sentar do lado enquanto a pessoa precisa parar um pouquinho. Ou chorar um pouco, deixar a tristeza aparecer para ela poder esvaziar e recomeçar”, pontua Rita Calegari, psicóloga do Hospital Nove de Julho.
Priorize seu bem-estar
Manter atividades possíveis e significativas pode preservar a sensação de continuidade da vida, a identidade e a conexão com outras pessoas. “Conversar com amigos, ouvir música, realizar um pequeno preparativo para o bebê ou compartilhar uma refeição são formas de manter espaço para experiências além da doença”, exemplifica Cristine. Mas, lembre-se: essas atividades devem respeitar as orientações médicas, disposição e a vontade da mulher.
Após a gestação
O nascimento do bebê não encerra automaticamente os medos, que, na verdade, podem se unir a preocupações com a própria saúde, com o futuro e com a capacidade de cuidar do bebê, tudo isso somado ao cansaço e às exigências do pós-parto.
Esse ainda pode ser o momento de uma outra etapa do tratamento, e o cuidado com a saúde física e mental deve ser constante. “Tristeza persistente, ansiedade intensa, desesperança ou dificuldade importante para realizar atividades cotidianas precisam ser avaliadas, sem serem atribuídas apenas ao puerpério. Busque avaliação médica de psiquiatra e psicóloga. A mãe também precisa receber cuidado. Aceitar ajuda não diminui seu lugar na vida do filho”, conclui Cristiane.