Magreza excessiva voltou a ser moda… mas não deveria

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Com o acesso facilitado aos tratamentos com GLP-1, emagrecer tem sido vendido nas redes sociais como uma solução mágica

Se falarmos sobre as criações que revolucionaram a saúde, as canetas emagrecedoras certamente ocupam um lugar de destaque. Conhecidas por nomes comerciais como Wegovy, Mounjaro e Ozempic, essas medicações agonistas do receptor de GLP-1 têm transformado o combate à obesidade — uma doença metabólica crônica e complexa, com sérios riscos à saúde.

Foto de Diana Polekhina na Unsplash

Utilizadas como suporte para mudanças no estilo de vida e até na preparação para cirurgias de redução de estômago, essas terapias se consolidaram como um sucesso global. Contudo, basta passar alguns minutos nas redes sociais para notar um fenômeno curioso. Expressões como ‘rosto de Ozempic’ ou ‘cabeça de Mounjaro’ viraram termos corriqueiros na internet. Por trás do tom de piada, entretanto, existe uma realidade bem mais sombria. Muitos desses quadros de feições envelhecidas ou aparências desproporcionais escondem, na verdade, uma perda de peso descontrolada, fruto do uso das ‘canetinhas’ sem a devida orientação e indicação médica.

A ideia de que emagrecer é fácil, rápido e estiloso trouxe de volta uma velha inimiga da saúde: a romantização da magreza extrema. “Antes, a magreza vinha de dieta e exercício, era mais visível. Hoje, ela pode vir de um remédio que tira o apetite de forma silenciosa, então a pessoa emagrece sem parecer estar ‘fazendo dieta’. Isso engana até o próprio médico, porque os sinais de desnutrição ficam escondidos atrás do tratamento medicamentoso”, alerta Higor Caldato, psiquiatra especialista em psicoterapias, transtornos alimentares e obesidade, e sócio do Instituto Nutrindo Ideais. “É importante saber que magreza rápida com remédio não é sinônimo de saúde. Sem um acompanhamento médico responsável, pode trazer inúmeros prejuízos mentais e físicos”, complementa.

Influência dos famosos 

Em 2024, a socialite Sharon Osbourne compartilhou suas experiências após alguns meses utilizando Ozempic e admitiu que a substância fez seu peso sair de controle. “Não consigo ganhar peso agora, e não sei o que isso fez com o meu metabolismo, mas simplesmente não consigo engordar, porque acho que exagerei”, desabafou ela em entrevista ao podcast Howie Mandel Does Stuff. Posteriormente, ela confirmou ao Daily Mail que não se arrependia de usar o medicamento, mas alertou que médicos não podem indicá-lo para qualquer pessoa. “Você pode perder muito peso e é fácil ficar viciado, o que é muito perigoso.”

É claro que ela não é a única. Embora diversas celebridades se recusem a confirmar publicamente o uso do medicamento, os casos de magreza excessiva entre famosos têm circulado na web. “Muita gente sem indicação médica está usando só para ficar magra, e isso é reforçado pelas redes sociais, onde influenciadoras mostram resultados como se fossem um estilo de vida desejável. O problema é que, em quem já tem uma predisposição, isso pode disparar um transtorno alimentar de verdade”, esclarece o psiquiatra Higor Caldato.

Atualmente, cerca de 15 milhões de brasileiros convivem com transtornos alimentares, como anorexia e bulimia, segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria. E o que é pior: muitas vezes, conteúdos irresponsáveis incentivam o transtorno, como trends no TikTok ou Instagram que promovem, especialmente entre mulheres jovens e adolescentes, a ideia de que comer menos as tornará mais bonitas ou, em casos ainda mais absurdos, as fará parecer mais ricas.

Diversos prejuízos

Não estamos aqui para dizer que emagrecer é errado, nem que a culpa é exclusivamente das canetas, mas sim para mostrar a verdade que a ‘moda’ do momento esconde: emagrecer por puro status e sem orientação também é responsável por uma série de problemas de saúde. “O problema não é ser magro. Existem pessoas naturalmente magras e perfeitamente saudáveis. O problema é o que uma pessoa precisa fazer com o próprio organismo para chegar e, principalmente, permanecer em um peso que talvez não seja fisiologicamente adequado para ela”, explica Érika Pimenta, ginecologista integrativa do Instituto Nutrindo Ideais e atuante em endocrinologia metabólica. “O risco aparece quando começamos a utilizar essas ferramentas para levar pessoas que já estão metabolicamente saudáveis a pesos ou percentuais de gordura cada vez menores. Uma pessoa pode estar muito magra e não estar saudável.”

Entre as diversas complicações que a magreza excessiva pode acarretar, estão: baixa massa muscular, inadequação proteica, deficiências nutricionais, alterações hormonais e comprometimento da saúde óssea. “Muitos desses danos podem ser reparados com auxílio médico, mas não todos, principalmente nos casos de desnutrição prolongada. Uma das minhas maiores preocupações é a saúde óssea. A baixa disponibilidade energética associada à supressão hormonal pode reduzir a formação óssea e aumentar o risco de osteopenia, osteoporose e fraturas”, alerta a médica.

Além disso, o sistema cardiovascular também pode sofrer. Em quadros graves de desnutrição podem ocorrer bradicardia, hipotensão e alterações da função cardíaca. “Também podemos ter perda muscular importante, alterações de humor, dificuldade de concentração, alterações do sono e maior risco de transtornos alimentares.”

“Quando alguém me diz que perdeu 10 quilos, minha primeira pergunta sempre é: perdeu 10 quilos de quê? Não basta ser mais leve. É preciso ser metabolicamente melhor e fisicamente mais forte.” – Érika Pimenta

Sinais de alerta

Higor esclarece que o alerta de que algo não está bem no emagrecimento aparece tanto no corpo quanto no comportamento. “Regras muito rígidas com comida, cortar grupos alimentares inteiros, se exercitar mesmo doente ou machucado, esconder o corpo, evitar refeições em grupo, mentir sobre o que comeu e ficar na defensiva quando alguém pergunta sobre o peso. Quando aparecem esses sinais, já é hora de procurar ajuda especializada”, destaca.

Já Érika reforça: o emagrecimento bem conduzido busca reduzir gordura preservando o máximo possível de massa muscular. “Para isso, precisamos de alimentação adequada, quantidade suficiente de proteínas e micronutrientes, treinamento de força, atividade física, sono adequado e avaliação do contexto metabólico e hormonal daquele paciente.”

Medicamentos podem fazer parte desse processo, mas eles não substituem estratégia e, principalmente, não podem substituir indicação médica. “Cada pessoa tem uma história, uma composição corporal, uma idade, uma condição hormonal e uma necessidade diferente. O músculo esquelético tem um papel enorme no metabolismo da glicose e na sensibilidade à insulina, além de ser essencial para a força, equilíbrio, mobilidade e independência funcional. Isso ganha ainda mais importância com o envelhecimento, porque já existe uma tendência progressiva à perda de massa e força muscular ao longo dos anos”, orienta.

Para concluir, a especialista deixa um recado: “A saúde não tem um único tamanho de corpo. Meu objetivo não é fazer alguém vestir o menor tamanho possível. É ajudar aquela pessoa a construir um corpo que seja saudável, forte e funcional hoje e que continue sustentando sua qualidade de vida daqui a 10, 20 ou 30 anos. A balança é uma informação. Só não podemos permitir que ela se transforme na definição de saúde”.